quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

O INDIGNO

Tinha trinta anos e não havia matado seu primeiro dragão. Tinha trinta anos e não havia tido, na verdade, um emprego de verdade. Não era rico nem pobre, não era bonito nem feio, não explorara ninguém mas jamais vivera pelos seus próprios recursos. Por toda a vida se mantivera protegido e inofensivo, distraído por perenes obrigações arbitrárias e pequenas diversões, mantendo-se permanente embrião do que podia vir a ser. Não tinha deixado qualquer marca, qualquer cicatriz no mundo ou em si mesmo, que justificasse sua passagem pela terra, pela cidade ou por este momento — e tinha maior e mais aguda consciência disso do que os que o lembravam vez por outra dessa sua indignidade.

Não lhe havia sido reservada ainda a glória menor da decadência, da enfermidade, da cegueira. Era desgraçadamente saudável, generoso, criativo e inteligente, mas ainda desempregado, sem pátria e sem chão. Tinha sonhos, mas eram eles que o perseguiam, não ele que perseguia os sonhos. Seu horizonte não tinha destino, não tinha reviravolta, não tinha nada.

Num outro tempo, numa terra em que houvesse espadas e monstros, teria sido o guerreiro mais ágil e mais temido da sua tribo. As mulheres que o ignoram no metrô repartiriam de bom grado a companhia uma das outras na sua cama; os homens sentir-se-iam honrados em repartir do seu vinho, e as crianças lhe atiçariam a lenda na luz da fogueira. Conheceria a feição das nuvens e todas as artes da cavalaria; o roçar da sua mão faria a terra tremer e as fronteiras se estenderiam para longe, de simples pavor, à menção do seu nome.

Mas seu mundo inconcebível era o nosso, e aqui todos ignoravam esse conhecimento, até mesmo ele. Intuía-o apenas o mundo natural, à sua maneira secreta: os pássaros despachavam apavorados à sua passagem, e as árvores ondulavam suas copas num pânico que simulava o vento. As abelhas simplesmente morriam, seus frágeis corações dorsais brutalmente implodidos, e os gatos observavam à distância com irrestrita admiração.

Seu corpo retinha alguma medida desse intuição, e quando tocava algum gradil ornamentado seus dedos entreviam imediatamente, imediatamente atentos, a empunhadura de uma espada. Quando saltava uma mureta suas pernas recordavam uma agilidade que nunca tinha sido necessária.

Se um tigre descesse sem anúncio aquela rua, se um automóvel deslizasse sem controle pelos paralelepípedos úmidos, seria ele o primeiro a estender o braço para salvar aquela criança; seria ele a indicar com formidável autoridade em que direção os demais, paralisados pelo medo, deveriam correr. Seria ele a anular em passos firmes a ameaça, e somente a ele ocorreria lançar-se em dois saltos sobre o táxi para apanhar a haste meio solta da luminária e penetrar o peito do assassino que, na multidão da manhã, ninguém sabe dizer quem é. A ele e a mais ninguém ocorreria lacerar as mãos destorcendo o metal para liberar o prisioneiro; seria ele a carregar nos braços a vítima, cego aos ferimentos que lhe deslizariam pelo rosto.

Tudo isso ele ignorava e, com a mesma clareza, ignoravam todos a seu redor. Era todos os dias apenas ele mesmo, e portanto muito menos que ninguém. Empurrava os pés dia adentro sem saber que o contador irritado que desistia na sua frente da fila do banco teria sido, em outras circunstâncias, seu mais fiel e despejado general.

Sem emprego, sem estímulo e sem qualquer reconhecimento, não conhecia saída, não lhe restava lugar ou espaço que não fosse sua indignidade. Tudo que existe, pensava, é minha absoluta inadequação ao que espera de mim este mundo. Chorava sob o chuveiro, onde ninguém poderia perceber, especialmente ele mesmo.

Entrou certa tarde num lugar de gente indigna, um abrigo de desesperados e esquecidos, gente inteiramente incapaz de viver por si mesma, e o primeiro velho que estendeu os braços para proteger da queda teria sido, em outras circunstâncias, seu primeiro tigre, o primeiro antagonista a morrer pela sua espada.

Por: Paulo Brabo

0 Comentários:

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]

<< Página inicial