domingo, 5 de outubro de 2008

Ciranda

Estamos no coche, que é na verdade uma carroça muito precariamente coberta, viajando por uma solitária rodovia secundária para além do Cardeal Proibido do ashram, na direção de Tochidepa’. Um encarnado está conduzindo as rédeas lá fora enquanto eu e Glenn sacudimos aqui dentro, as costas apoiadas contra ensebados barris de manteiga e latas de arenque. A precariedade da nossa condição não nos deixa ignorar que estamos fugindo; não canso de me maravilhar de que estejamos nos escondendo, especialmente porque não tenho como saber exatamente do que.

E, pela primeira vez em muito tempo, não suportaria saber mais do que sei. Estou correndo há tanto tempo e tropeçando em tantas revelações que concluo ansiar por um período prolongado de vácuo perfeito: deixar o velho cérebro processar e chegar às suas próprias conclusões. Glenn ofereceu-me um par de sapatos, que recusei; o que eu queria dele é um prato de comida e uma rede. Quietude. Preciso dormir.

Já Glenn, que passou anos convivendo comigo sem deixar escapar nenhum vislumbre do que estava realmente acontecendo, precisa aparentemente conversar.

– Ciro, não sei o quanto Gandhi disse a você – ele começa com cautela.

– Temos poucas regras neste ashram – recito, com alguma crueldade, – mas uma delas é não falar de quem não está presente na hora da conversa. Blá blá blá.

– É uma regra surpreendentemente sã – ele desvia o olhar por um momento, contemplando pelas brechas da cobertura de lona a paisagem lá fora. É quase a hora do duplo crepúsculo, e a vegetação começa a se adensar à medida em que nos afastamos do acampamento. – Aprendi com ela a me concentrar no momento.

– Duvido que vocês não tenham falado de mim na minha ausência. Minhas orelhas estão ardendo há anos.

Ele sorri muito brevemente.

– Algumas vezes é estritamente necessário.

– E vocês sabem dizer quando esse momento chega.

– Espero que sim – ele me olha diretamente nos olhos, uma ânsia de sinceridade no rosto. – É sobre isso que preciso lhe falar. O que o bapu lhe disse há pouco é a mais pura verdade. Não importa o que o pessoal de Mia Dladla esteja lhe pedindo para fazer: não faça. Você não imagina o quanto essa gente é perigosa.

Tenho de rir em voz alta.

– Se há algo que aprendi nesse meus anos de céu, meu amigo, é que nada é perigoso por aqui. Quero dizer, nada é realmente perigoso, e essa é a grande farsa, a grande ciranda celestial. Na terra podiam colocar uma faca na sua garganta, podiam apertar uma espingarda contra a sua testa. Aqui tudo que um homem tem a perder é a sua reputação, e nos últimos dias tem mudado radicalmente a minha posição sobre o assunto. Sabe o que penso agora sobre perder a minha reputação? Foda-se.

– Finalmente – sem abrir um sorriso ele parece definitivamente celebratório. – Mas ouça o seu amigo e tome cuidado. Se não digo mais é para a sua própria segurança; como as coisas estão, você já está sendo suficientemente visado.

E nisso ele finalmente está certo. Aperto o braço dele com a mão direita.

– Fique tranqüilo, Glenn, não tenho a mínima intenção de fazer o que estão me pedindo.

É só quando as palavras me saem da boca que reconheço que estou falando a verdade.

– Excelente – ele decide. – Você deve ir para um lugar seguro; melhor ainda se eu não ficar sabendo onde é.

Mudo a posição no canto em que estou sentado e apóio os cotovelos sobre os joelhos.

– Você pode descansar. Minha idéia é pegar a Cassandre e partir para muito longe da capital Q – e aqui ele não tem como saber, mas não estou falando a verdade. Pelo menos não por completo.

A parte verdadeira, que Glenn já deve ter intuído tanto quanto eu, é que a esta altura não tenho como retomar a minha vida anterior. Algo fundamental se perdeu no Cirurgião com as adições dos últimos dias. Mais do que isso: do ponto de vista da minha recém adquirida perplexidade, não tenho vontade de voltar, o que é por si mesmo inteiramente notável. Gandhi está errado; voltar atrás é que seria estreitar a minha história.

Devo seguir adiante, para longe do Bureau, da Alameda Éden e de sua mesquinharia circular. Estou cansado da dança da aquisição, inteiramente exaurido por dentro e por fora; a única coisa que ainda espero que dê realmente certo é pegar Cassandre pela mão e – se ela quiser – correr com ela para o interior. Talvez seja esse, finalmente, prematuramente, o chamado da telopausa.

Mas antes dessa arrancada preciso reparar algumas pontas soltas, e essas coisas me empurram na direção da capital Q. Disso Glenn não precisa saber.

Quando ele me acorda, não sei quanto tempo depois, o coche já está parado junto a uma das extremidades da plataforma. Estamos em Tochidepa’, e uma locomotiva não vista apitou em algum lugar.

– Sua camisa cicatrizou bem. Você tem certeza que não quer um par de sapatos?

– Não preciso de nada – asseguro, endireitando a coluna e ajeitando os cabelos.

Afasto a lona para o lado e pulo para fora da carroça.

– O nosso encarnado que está com Cassandre chama-se Pérnum, você deve procurá-lo na estação. É um sujeito grandalhão, de cabeça raspada, que usa uma capa de chuva amarela.

– Numa palavra, perde-se na multidão.

– Você já deve tê-lo visto mais de uma vez, ele estava encarregado de seguir você. Pérnum vai lhe ajudar com o que você precisar.

Abstenho-me de lembrar que foi o cara que me deu uma surra quando levou Cassandre embora.

– Muito bem.

– Cuide-se, amigão.

– Você também.

A carroça já está se afastando quando Glenn lembra-se de gritar:

– Se Pérnum pedir a palavra-chave, diga o nome verdadeiro dele. Ele vai saber que está tudo certo.

– Qual é o nome verdadeiro dele?

– Gottlob.

Glenn já desapareceu por trás da lona, mas minhas pernas não sabem exatamente para onde ir.

Gottlob é o nome que estava no cartão que o Encarnado me deu antes de ir para a estremadura, o nome com que Mia Dladla acenou para confirmar sua ligação com o Ermitão e me apertar para remeter a sua encomenda.


Paulo Brabo

1 Comentários:

Às 5 de outubro de 2008 às 19:54 , Blogger wesleysbandeira disse...

Muito 10 seu blog


Eduardo vc é o cara!!!

Flw!!!

Wesley Bandeira

 

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